7.06.2013

Livro | Na Barreira do Inferno (Silvia Cintra Franco)


Na Barreira do Inferno é um livro que carrega atrás de sua história temas como o feminismo, o sindicalismo, a ecologia, política e classe social através de passagens que instigam o debate e o pensamento de pessoas que tenham a mente aberta para o questionamento, além de algum passatempo para as horas vagas.
Dina, Bruno, Simone e Otaviano são colegas de classe e precisam entregar um trabalho em grupo escrito para a aula de geografia. O tema é critério de escolha de cada grupo e a partir da carga cultural de cada um dos integrantes, eles foram discutindo e aprimorando as ideias para o trabalho: a irmã de Dina é jornalista e esta também é a pretensão da garota, que propôs que o trabalho se tratasse sobre a “Comunicação: a Imprensa e a importância do satélite de transmissão de imagens da Embratel” (p. 14); Simone, influenciada pela cultura em que foi criada por seus pais – a mãe feminista e o pai sindicalista -, deu primeiramente a ideia de ter o trabalho estruturado em cima do dia 8 de março, dia da Luta da Mulher, mas como não foi aceita, propôs que fizessem sobre o sindicalismo brasileiro, proposta também rejeitada pelos colegas; Otaviano, o mais simples da turma, bolsista do colégio em que estudavam, sugeriu como tema as hidrelétricas que estavam sendo construídas na região de Natal, onde moram, mas esta também foi negada. Bruno, assim como Dina, possui de tudo em casa, mas diferentemente da amiga, possui a pressão dos pais para que seja como seu irmão mais velho: Sérgio é o “engenheiro responsável pelo projeto Amazonsat” (p. 38) e antes de conseguir tão alto cargo, foi estudante do ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica de São José dos Campos. Assim, por conta dessa pressão, propôs que fizessem um trabalho sobre o satélite Amazonsat, que tem como meta “lozalizar direitinho os desmatamentos e as queimadas que estão acabando com a Amazônia.” (p. 14).
Deste modo, em uma única página, curta, até, Silvia Cintra Franco expõe temas altamente debatidos na sociedade e que adolescentes de 15 a 17 anos – faixa etária a que são recomendados os livros da série Vaga Lume – normalmente não se questionam.
Dividiram tarefas entre si, cada um coletando dados sobre o desmatamento da Amazônia e como o novo satélite poderia ajudar a reduzir os estragos e foi cada um para o seu lado organizar-se da sua parte.
Entretanto, o que começou como um trabalho escolar, subiu à cabeça de cada um de formas diferentes. Dina enxergou que o desmatamento apesar de ilegal e prejudicial para o planeta Terra, possuía uma carga social importantíssima: quem trabalhava cortando a árvore apenas o fazia por não ter onde mais trabalhar. Simone foi entrevistar o famoso ecologista Cido Lima, conhecido dos seus pais e ameaçado de morte e após obter as informações desejadas, foi testemunha ocular da morte dele, o que a deixou ainda mais engajada na causa ecológica. Após a morte do ecologista, a família de Bruno passou a receber ligações com ameaças de morte a seu irmão se este não parasse o projeto Amazonsat. Otaviano foi o único, que, preocupado com as notas que obtinha na escola e em passar seus conhecimentos para a irmã que por escolha dos pais, deixou de estudar para cuidar dos irmãos mais novos, manteve-se em sua zona de conforto.
Aos poucos, os quatro vão enxergando coincidências entre o assassinato de Cido Lima e as ameaças para Sérgio e acabam encontrando algum suspeito. Com a ajuda dos irmãos de Dina, Bruno e Otávio, os quatro vão se envolvendo em uma operação para que nada impeça o satélite de decolar.

TRECHOS PARA O DEBATE:

Questão política:
“- Acho muito burro esse deputado. O Brasil está cheio de problemas, e não dá pra resolver um de cada vez e deixar os outros problemas esperando. A gente tem que ir resolvendo tudo ao mesmo tempo!
(...)
- Não acho que o deputado seja burro. Vocês sabiam que foi ele quem mandou asfaltar a rua lá de casa e pôs luz no bairro todo? Na minha rua todo mundo gosta do deputado Campos.
Simone deu uma gargalhada e quase se engasgou com o pão.
- Claro – retrucou a garota -, o seu bairro é o curral eleitoral dele.
Otaviano levantou-se ofendido. Ele não aceitava provocação e muito menos de mulher xingando o bairro dele de curral!
Foi a Dina quem apaziguou, explicando que curral eleitoral era como na política se chamavam as regiões onde um político tinha maioria de votos. E era pra lá que eles procuravam trazer melhorias a fim de garantir esses votos.” (pp. 16/7).

Questão social:
“O garoto era mulato, não muito alto e tinha braços musculosos. A pele, curtida a sol e mar, a vento e pesca. Sentia-se muito orgulhoso de ser um dos primeiros da classe e muito mal quando via a riqueza de seus colegas, os tênis caros que eles usavam... sentia uma certa vergonha das alpargatas gastas que não tinha como substituir.” (p. 11).

“Dina observou a serraria, que recebia balsas e balsas carregadas de toras. Ela estava horrorizada. E não se conteve: fez o comentário em voz alta.
- isso devia ser proibido!
Um funcionário que estava perto da garota retrucou:
- E nós vamos viver do quê? (...) Talvez haja outras formas melhores de explorar as riquezas da região, mas quem nos contratou explora desse jeito. Eu tenho filhos pra criar e não posso rejeitar trabalho.” (p. 22).

Questão feminismo x machismo:
“Marialva era a irmã mais velha, garota inteligente e esperta. (...). Às noites, Otaviano ensinava-lhe o que havia aprendido na escola já que ela só havia feito a primeira série. Os pais haviam decidido que a moça deveria ficar em casa para cuidar dos irmãos menores. Marialva sentia, às vezes, que aquela decisão era injusta. Ela adorava estudar, mas estava destinada a passar a vida fazendo trabalhos domésticos.” (p. 23).

Questão ecológica:
“- Em Albina, eles inundaram a mata sem retirar árvores, plantas ou animais – explicou Otaviano. – Nem sequer trataram de aproveitar a madeira. E deu no que deu: as árvores e a floresta apodreceram embaixo embaixo das águas do lago e acabaram soltando gás metano, que mata os peixes e deixa a população ribeirinha sem sustento. O pior é que a hidrelétrica não consegue abastecer nem a cidade de Manaus! Apesar do tamanho do lago ser igual ao de Tucuruí, a água é pouca e produz trinta vezes menos energia.” (p. 28).

PARA REFLEXÃO:

“Ninguém pode, em sã consciência, desobrigar-se de cuidar da Terra, dos que a habitam: animais, plantas, rios e mares... A sobrevivência do Homem depende da sobrevivência da Natureza que o abriga.” (p. 27).

INFORMAÇÕES DO LIVRO LIDO:
Título: Na Barreira do Inferno
Autor: Silvia Cintra Franco
Editora: Ática            Série: Vaga Lume

Edição: 2ª      Ano:1991
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Criado por: Elane Medeiros - Isaú Vargas.
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