5.12.2017

Livro | Quando tudo volta (John Corey Whaley)


É muito complicado comentar alguma coisa sobre o livro Quando tudo volta e por diversos motivos. Todas as vezes que eu tento fazer algum tipo de observação sobre ele, tudo fica bem confuso porque cada detalhe está relacionado. Quando digo isso, me refiro a cada detalhe mesmo: tanto os detalhes da história em si, quanto os detalhes da construção da narrativa e os detalhes da própria edição brasileira. Mas vamos com calma pra eu não misturar todas as coisas.

Quando tudo volta é um livro escrito por John Corey Whaley e ganhou o prêmio de melhor livro pela American Library Association, foi considerado o melhor livro de estreia pelo William C. Morris Award e recebeu o prêmio de excelência em Literatura Young Adult pelo Michael L. Printz Award. Ou seja: esse livro não é pouca coisa.



Nele, John Corey vai contar a história de Cullen e como de repente a cidade em que ele vive se tornou centro das atenções nacionais por causa de um pica-pau extinto que foi visto em uma das florestas da região. Entretanto, enquanto todos estão focados em achar o tal pássaro e trazer mais turistas para a cidade, o Cullen só quer achar outra coisa que é muito mais importante que um animalzinho que ninguém sabe se realmente existe.

Mas o charme dessa história, na verdade, está nas particularidades dela e a principal, é que inicialmente o livro possui duas histórias diferentes e paralelas: a do Cullen, que eu já contei pra você, e a do Benton.



Benton é um garoto que quando terminou o colégio, não foi para a faculdade. Isso porque ele achava que aquele não era o caminho que sua vida devia seguir. Não dá pra dizer que ele era alguém religioso, mas ele acreditava que Deus tinha um plano para sua vida e isso foi decisivo na hora de escolher fazer trabalho missionário na África. Só que na África ele se viu diante de questionamentos que a sua fé não foi suficiente para responder e a sua vida a partir disso também mudou.

Existe um momento em que as duas histórias chegam e se tornam basicamente histórias de outras personagens, que estão diretamente ligadas ao Cullen e ao Benton. E é nesse instante que o livro fica genial e extremamente arrastado, porque tudo caminha para uma convergência que nunca chega mas que fica iminente a cada página lida.



Mas não vamos nos precipitar. Outros personagens aparecem além dos dois já citados e todos eles são cheios de personalidade e força. Menos o Cullen. Isso não seria um problema, claro, se o Cullen não fosse o personagem principal do livro. Todas as histórias existem em volta da história do Cullen e do que ele está passando. Que aliás, eu não vou contar porque levei um susto quando descobri e considero um spoiler importante.

Mas voltando: todos possuem alguma ideia sobre o que fazer da vida e quando se questionam sobre o presente, tomam alguma decisão. O Cullen não. Quando a gente lê o livro, até acha que existe uma espécie de explicação de porque ele age assim, mas se você for reparar, essa explicação não cola. Até porque, o Cullen demonstra ser e agir assim desde o começo da história, quando tudo ainda estava bem. E além de não tomar as rédeas da própria vida, o Cullen se deixa levar pelo que as outras pessoas dizem, se inferioriza o tempo todo e fica criando situações surreais em que ele finalmente faria alguma coisa. Mas é interessante notar como até nessas situações inventadas, ele consegue fazer com que alguém seja melhor que ele. Resumindo: o Cullen não é o melhor dos personagens, é completamente estático. Mais tarde, pensando no assunto, lembrei de uma época na literatura italiana em que todos os personagens eram assim, sem ação. E esse assunto vai aparecer por aqui logo, logo, aguardem!




A narrativa do livro vai formando uma trança com as duas histórias e se tornando mais complicada conforme mais personagens vão surgindo. Em nenhum momento a história se torna inverossímil, mas um outro problema aparece com a narrativa.

Inicialmente, eu achei que era a forma em que o livro foi narrado realmente. Ele não é daqueles livros em que a narrativa segue uma linha temporal lógica e eu cheguei a dizer que o autor tentou trazer uma narrativa estética e não conseguiu, mas depois de ter lido o livro, percebo que essa minha avaliação estava errada.



A narrativa é sim estética e artística e é bem feita em todos os seus aspectos: a escrita é muito boa, a narração é incrível, os personagens são bem feitos, além de te dar todas as vontades de continuar a leitura. Entretanto, o problema está na edição brasileira. O livro possui uma história simples e essa simplicidade foi passada para a tradução de uma forma que faz a narração parecer boba e confusa. Além de possuir erros grotescos de tradução que não deviam ter passado pela fase de revisão do livro.

Então chegamos em dois problemas: o livro foi mal traduzido e mal revisado. Quando digo que foi mal traduzido, quero dizer que o verbo de algumas frases, que pode ter dois significados, por exemplo, foi traduzido pra um significado errado e fez a frase perder o sentido. Para quem não entende o inglês que é a língua original do livro, esse erro pode trazer consequências graves para a compreensão história, o que aconteceu comigo em determinado ponto. E sabemos que foi mal revisado porque são erros tão bobos que um revisor teria percebido ao ler, como eu percebi.

Fora isso, eu fiquei bem incomodada com a diagramação do livro. Existe um espaço gigante na parte superior das páginas e quase nenhum espaço na parte inferior, como se o livro fosse mal planejado. Sem contar que foram usadas diversas fontes nas páginas iniciais de cada capítulo, fontes que não combinam entre si e ainda cansam os olhos quando a gente olha. A ideia era fazer uma edição toda bem trabalhada mas ficou apenas algo bem exagerado. No vídeo que eu fiz sobre esse livro, eu dei uma filosofada sobre isso, acho que vale a pena dar uma olha!


Mas o ponto importante: o livro vale a pena?

Eu não compraria. Li emprestado e eu recomendo que todos façam o mesmo antes de comprar. Porque até chegar num ponto em que eu realmente fiquei empolgada com a história, passei muita raiva e quase desisti, mesmo que eu quisesse saber o que iria acontecer, ou melhor, como terminaria. Mas a leitura vale a pena. Não vai ser tempo perdido. Claro que se você tiver a oportunidade de ler no original, vai fundo. E acho importante lembrar que eu sou bem chata com edições de livros, de modo que talvez tudo o que eu falei sobre a diagramação e revisão não valham pra você!


SOBRE A EDIÇÃO

Título: Quando tudo volta
Autor: John Corey Whaley
Editora: Novo Conceito
Ano: 2014
Páginas: 224

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Criado por: Elane Medeiros - Isaú Vargas.
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